*Maíra Weber
A violência contra meninas e mulheres, seja física ou simbólica, esteve sempre presente, tristemente, na realidade de diferentes sociedades ao redor do mundo. No Brasil, dados de 2025 indicam 1.568 feminicídios, o que representa uma alta de 4,7% em relação a 2024. E o pior: os números têm aumentado em 2026, com o crescimento de 3,49% registrado apenas em janeiro.
As obras de arte, ao longo do tempo, refletem a sociedade e retratam suas mazelas. As primeiras narrativas literárias voltadas ao público infantil, como os contos de fadas, por exemplo, carregam uma concepção estereotipada da mulher, intimamente ligada à visão de mundo moldada pela coletividade. Muitos clássicos ensinaram meninas a terem como ideal de vida um príncipe salvador e a naturalizar o distanciamento entre os papéis sociais concebidos para homens e mulheres na sociedade.
Ao longo do tempo, isso pode desencadear, inclusive, comportamentos extremistas, como retratado na excelente e multipremiada série britânica Adolescência, que mostra como meninos podem ser ludibriados por discursos misóginos que circulam nas redes sociais. Influenciadores associados ao chamado movimento red pill difundem a ideia de que mulheres devem ocupar um lugar inferior e disseminam a crença de que os homens são vítimas de um sistema social manipulado por mulheres.
Como enfrentar esse desafio? Romper esse ciclo pede mais do que discursos e legislações: exige formação crítica profunda para que ocorram transformações nas ações. É nesse contexto que a literatura pode se tornar uma poderosa aliada, ao trazer a ficção como substrato para o debate. O estudioso austríaco da mente humana Bruno Bettelheim, autor de A psicanálise dos contos de fadas, aponta que, para que a criança compreenda sua existência e dê sentido a seus sentimentos, precisa entrar em contato com recursos que possibilitem lidar com seus conflitos.
Assim, a literatura torna-se uma ferramenta importante. Ler é um processo individual de autoconhecimento: é um momento em que a pessoa está sozinha com suas sensações e reflexões – sem televisão, sem celular, sem videogame, sem conversas com outros. Quando se lê, entra-se em um mundo no qual o leitor faz sua própria interpretação da narrativa e reflete sobre questões amplas da humanidade, colocando-se no lugar dos personagens.
No entanto, é preciso qualificar a leitura. É necessário ultrapassar leituras de caráter utilitário, que utilizam o texto meramente como pretexto para atividades didáticas, prática encontrada durante muito tempo nas escolas do país. É importante escolher livros de literatura de qualidade, voltados à formação estética, capazes de educar as sensibilidades e de possibilitar ao leitor um espaço para refletir com criticidade e liberdade interpretativa.
Projetos de leitura literária na escola que engajam estudantes e até suas famílias com histórias que valorizem meninas e mulheres – que podem ser frágeis, fortes, mas sobretudo humanas – oferecem às crianças e aos jovens ferramentas simbólicas para enfrentar a violência e a desigualdade.
A literatura escrita por mulheres é fundamental para ampliar esse horizonte. Autoras como Marina Colasanti, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles e Conceição Evaristo revelam, em suas obras, a complexidade, a inteligência e a dignidade das experiências femininas. Ao ler essas vozes, jovens meninas e meninos podem rever seus pensamentos e comportamentos. Além disso, há uma imensidão de livros de literatura infantil e infantojuvenil de extrema qualidade – escritos por mulheres e por homens do Brasil e do mundo – que desmistificam o imaginário da fragilidade, da passividade e da inferioridade femininas. Inspirar projetos de mediação de leitura baseados em narrativas potentes pode salvar muitas vidas.
*Maíra Weber é doutora em Educação e pesquisadora do Instituto Positivo.



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