Rabinho quente, e língua defumada: as “viúvas” de Ibaneis

 A governadora Celina Leão, foi ao almoço promovido por Ibaneis Rocha foi recebida por ele em tapete vermelho não deixando entrar no cardápio assuntos indigestos 

Brasília adora um ritual. Alguns são oficiais. Outros, nem tanto. Há também os que misturam política com cardápio, estratégia com tempero e constrangimento com sobremesa. Foi assim no almoço promovido por Ibaneis Rocha, neste sábado, 25 que deixou o governo de olho em um das cadeiras ao Senado, mas não perdeu o apetite nem o hábito de reunir os seus.

A mesa era farta. Feijoada completa, rabinho e língua de porco à vontade. Nada mais apropriado para um encontro onde sobram resquícios de poder e faltam certezas sobre o futuro. À volta da panela, circulavam aliados, ex-aliados e as sempre presentes viúvas do ibaneísmo, grupo que vive de saudade e de intriga, alimentando o já conhecido fogo amigo contra quem ousou ocupar o lugar que antes gravitavam.

A aposta era simples e rasteira: Celina Leão não apareceria. Seria o gesto esperado por quem torcia por mais um capítulo de ruptura. Erraram. E erraram feio.

A governadora chegou. E não chegou de passagem. Sentou, comeu e, mais importante, olhou nos olhos de quem esperava distância. Em política, isso vale mais do que discurso. Foi um recado direto, sem intermediários, de quem sabe que não deve e não teme. Cada um no seu quadrado, como se diz na linguagem menos protocolar e mais honesta dos bastidores.

Ibaneis, anfitrião da vez, recebeu com cordialidade e, segundo relatos, com reconhecimento ao esforço de quem tenta reorganizar uma casa que ele próprio deixou em desordem. A cena não agradou a todos. Aliás, desagradou a muitos.

O grupo que por anos se locupletou à sombra do poder, com a anuência silenciosa do antigo comando, assistiu à cena como quem engole seco. A feijoada, que prometia celebração, virou teste de estômago. Para alguns, indigesta.

Desde o escândalo envolvendo o Banco de Brasília e o Banco Master, Celina Leão tenta impor cortes, reorganizar prioridades e reforçar áreas sensíveis como saúde, educação e segurança. Não é um movimento técnico apenas. É político. E mexe com interesses.

Interesses que estavam sentados à mesa naquele sábado, esperando ausência e encontrando presença. Em Brasília, isso faz diferença. Às vezes, define o jogo.

No fim, sobrou comida, faltou consenso e o recado ficou dado. Quem esperava confronto ganhou gesto. Quem apostava na ausência teve que engolir a presença. E, para muitos, o rabinho e a língua foram apenas detalhes. O prato principal foi outro. O abraço caloroso não foi “abraço de afogado”.

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SICREDI