Aos 94 anos, integrante do projeto do Sesc-DF para pessoas 60+ fala da importância da instituição em sua vida e ensina o que é ser idoso
Dona Firmina chegou à aula de yoga alguns minutos atrasada nessa quarta-feira (10/6). Aos 94 anos, ela atravessou o saguão do Teatro Newton Rossi, no Sesc Ceilândia, com a destreza de uma criança pulando amarelinha. Desviou das dezenas de esteiras estendidas no chão e alcançou a primeira fila da turma do projeto Mais Vividos, já posicionada para seguir as orientações da instrutora.
Nascida e criada no interior do Maranhão, onde foi professora rural em 1949, Dona Firmina Miranda Silva veio para Brasília em 1966, aos 34 anos, quando a capital federal tinha apenas seis anos de existência. Na bagagem, trouxe coragem, sete filhos e o marido com quem viveu 69 anos. Aqui, construiu uma vida com muitas aventuras, 22 netos, 30 bisnetos, sete trisnetos e uma vitalidade incomparável.
No último dia 7 de junho, Dona Firmina fez aniversário e quis comemorar. Com a ajuda dos familiares, preparou um momento especial. No quintal de sua casa, em Águas Lindas de Goiás, montou uma mesa com toalha de cetim rosa, bolo confeitado, docinhos, jarro de flores e uma placa redonda com os dizeres “feliz aniversário” em letras curvilíneas e douradas. Na árvore que dava sombra à mesa, pendurou balões em tons de ouro e rosê, alguns em formato de estrela. Mas o ápice da festa foi pensado exclusivamente por ela.
Durante uma insônia na noite anterior, Dona Firmina colocou em prática conhecimentos adquiridos nas aulas de yoga e resolveu meditar. Foi então que decidiu mostrar os momentos mais importantes de sua trajetória em sua festa de aniversário. Na lista de convidados da festa estava a assistente social do Sesc Ceilândia Joyce Ferreira dos Santos, que acompanha Dona Firmina no projeto Mais Vividos desde 2025. Joyce foi a única convidada que não fazia parte da família da aniversariante.
A festa começou. Em cada momento da comemoração, Dona Firmina vestiu uma roupa especial que marcou sua trajetória de vida. O que Joyce não esperava era que a camiseta do projeto Mais Vividos seria uma das peças escolhidas por Dona Firmina. Esse foi o último figurino da aniversariante, que fez questão de compô-lo com as medalhas que conquistou durante seus 13 anos de Sesc.
“Eu queria apresentar alguma coisa que eu recebi do Sesc e mostrar para minha assistente social que foi uma honra muito grande ela ter comparecido no meu aniversário”, conta Dona Firmina. Segundo ela, a participação do Sesc em sua vida “é uma edificação”. “Tenho essa idade de 94 anos graças a Deus e ao Sesc. Em primeiro lugar, tem Deus para nos determinar. Mas a gente tem que agir, dar valor à vida e continuar fazendo as coisas que edificam nossa vida. E é no Sesc que eu consigo ter meu equilíbrio corporal, por causa das atividades físicas, e têm as atividades que servem para alegrar a vida da gente”, conta Dona Firmina.
Ela conheceu o Sesc aos 72 anos. “Iam suspender a hidroginástica de onde eu estava fazendo. Aí minha filha disse: mamãe, tem o Sesc”, lembra dona Firmina, que frequenta a unidade da Ceilândia quatro vezes por semana para fazer yoga, hidroginástica e coral. Mas quando tem oportunidade, também faz cursos, passeios e viagens. “Esse Sesc já me deu muita coisa. Só não falo tudo porque é Deus que dá tudo”, diz.
De tudo que Dona Firmina participou no Sesc, talvez a que mais chame atenção seja sua perspectiva sobre o passar do tempo. “Não sou velha, sou idosa. Velha não sou. O que envelhece em nós é só a matéria. Nosso espírito é renovado a cada manhã. Então, não entendo de velhice, entendo de idoso ativo e feliz”, ensina.
A assistente social Joyce dos Santos explica que, no projeto Mais Vividos, trabalha-se para “desconstruir o estereótipo do ‘ser velho’, para equipar os idosos com informações para que eles não tenham seus direitos violados”. “O trabalho que a gente faz com os idosos vai além do lazer. Ele trabalha na perspectiva do direito da pessoa idosa”, explica a assistente social que entende o Mais Vividos como “uma nova perspectiva de mundo, de vida”. “Me emociona saber que, enquanto instituição, a gente consegue garantir uma qualidade de vida, trabalhar com nossos idosos questões relacionadas a direito, a empoderamento, ao envelhecer de forma digna e saudável”, declara Joyce que, aos 27 anos, enxerga um futuro inspirado em Dona Firmina e no conhecimento de que envelhecimento não é necessariamente um declínio biológico. Tornar-se idoso é também poder realizar sonhos, ter desejos, amar, adquirir novos saberes e novas habilidades; sentir profundamente o fluir da vida.


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